Debatendo o corpo na arte
Debatendo o corpo na arte
Performance e instalação multimídia são palavras recorrentes no universo de Roberta Lima, artista brasileira que reside em Viena desde 2001. Dona de um trabalho instigante que mistura conceitos de arquitetura ao “body modification”, utiliza o próprio corpo como base na produção artística que desenvolve em diferentes mídias, que inclui fotografias, vídeos e instalações. As relações do corpo com o espaço permearam seu trabalho nos últimos dez anos. Num primeiro momento, foi o próprio corpo que serviu de base para o desenvolvimento da sua arte, agora ele é o centro do debate proposto nas instalações da artista.
Quando ainda morava no Brasil estudou arquitetura e trabalhou com fotografia, desenvolvendo um portfólio que lhe rendeu o aceite na Academia de Belas Artes de Viena. Na academia austríaca se formou em fotografia e atualmente cursa doutorado lá. Seus trabalhos mesclam referências das suas duas formações numa linguagem interdisciplinar e já foram apresentados em Dusseldorf, Pequim, Nova York e no Egito, na Bienal do Cairo, inclusive.
Conversamos com Roberta para conhecer mais do seu trabalho e vivência no exterior enquanto artista:
Como você relaciona sua formação em arquitetura e belas artes com o trabalho em performance e instalações multimídia desenvolvido nos últimos 10 anos?
Tudo está relacionado, eu diria que na verdade estão interligados. O foco do meu trabalho são as relações entre corpo e espaço. Já na época em que eu estudava arquitetura, comecei a investigar estas relações através do uso da fotografia. Inicialmente, estas relações eram puramente formais: eu fotografava a deformação dos corpos através de processos como o de modificação corporal e as transcrevia em formas arquitetônicas. Logo após a minha graduação na Unisinos (RS) eu me mudei para Viena para estudar artes. Eu entrei na Academia de Belas Artes, mais especificamente na classe de fotografia, pois meu portfólio era formado apenas por fotografias. Entretanto, meus professores identificaram desde o início o elemento performativo em meu trabalho. Os debates sobre o corpo, que já haviam sido iniciados no Brasil na prática, se concretizaram em Viena, quando houve o encontro com a teoria. Da mesma forma, eu comecei a experimentar com o uso de outras mídias, como vídeo e produção de objetos. Hoje tudo está interligado: meu trabalho acontece através de um diálogo interdisciplinar, onde todas as minhas experiências como arquiteta, artista e teórica se encontram.
Seus trabalhos anteriores tinham um foco muito grande na intervenção no próprio corpo, perfurando-o e às vezes até machucando-o. Como foi o processo de transição para os trabalhos mais recentes em que o corpo ainda é abordado, mas ele não é o foco das intervenções?
As performances que envolviam a perfuração do meu corpo estavam relacionadas ao que eu chamo de “abertura do corpo ao debate”. Elas também tinham como objetivo investigar as relações do corpo através da desconstrução de conceitos de beleza e de mecanismos de biopolítica presentes na sociedade. Foi também durante este período que eu comecei a estudar teorias de gênero e “queer” para questionar estes mecanismos de biopolítica. Em The Dress Trilogy (2007-2008) eu busquei referências históricas, como nas revoluções que ocorreram no século XVIII em reformular o vestuário feminino, quando o Corset foi apontado como um dos símbolos mais brutais na história da biopolítica. A recriação de um cenário onde meu corpo era perfurado com agulhas para ajustar o vestido era uma referência direta à brutalidade do uso do Corset. As reações do público eram diversas, pois esta recriação sempre foi feita de maneira estética e através do uso consciente da mídia – os vídeos, fotos, objetos nunca foram produto de um processo, mas parte crucial no diálogo performativo. As performances ocorriam dentro do contexto de instalações de vídeo, onde o público presenciava as intervenções no meu corpo através de grandes projeções. A maneira como eles se posicionavam entre si, em relação ao meu corpo e às projeções resultava na configuração espacial e na percepção do trabalho. Foi então que eu percebi que o foco do meu trabalho eram as relações que ele criava. Assim foi feita a transição. Nos trabalhos subsequentes, eu comecei a redirecionar as câmeras para o espaço, portanto, para audiência. Eu também comecei a usar câmeras de vigilância, outro mecanismo de controle social, para continuar expondo a problemática da biopolítica. Em alguns trabalhos, como Synchronicity (2008), eu usei uma microcâmera de vigilância aderida ao meu corpo, para enfatizar as relações entre o corpo e o espaço, como você mesma apontou, sem chamar atenção direta apenas ao meu corpo.
Penso que os trabalhos onde o corpo foi “aberto ao discurso” realmente foram importantes para que houvesse uma transição. No começo, o debate era sobre resistência. Retratada pelo corpo que sim, era machucado. Dor existe, mas é apenas ignorada. A sociedade aceitou por séculos o uso de peças de vestuário como o Corset porque ele não estava exposto, da mesma forma que a dor e a deformação dos corpos não estavam expostas. Nas performances tudo é superexposto, não tem como não haver o debate. A relutância das pessoas e a dificuldade de confrontação com o tema apenas provou o quão conservadora a sociedade ainda é. Após ter constatado isso eu obviamente comecei a buscar outras questões. Por exemplo, quando comecei a investigar o papel da audiência, eu me perguntei como poderia usar performance não apenas para iniciar debates, mas também para possibilitar o direto acesso do público ao trabalho de arte. Estas questões guiaram a concepção de trabalhos como Displacement feito em janeiro deste ano (2012) na galeria White Box em Nova York.
Já faz bastante tempo que você mora fora do Brasil, mas você nunca expôs aqui desde que saiu do país. Existem planos neste sentido?
Existe um imenso desejo de expor no Brasil. Mais além, existe uma grande vontade de produzir trabalho no Brasil. O meu trabalho é definido pelo “environment” onde ele é produzido e existe uma direta relação entre o espaço e seus elementos. Concebido para um espaço específico, a sua constituição final é diretamente influenciada pelos eventos que nele ocorrem e pelas relações que nele são criadas. Quando eu morava no Brasil, já trabalhava com autorrepresentação em fotografia. Foi também nesta época que participei de um debate que se iniciou dentro do movimento de modificação corporal (Body Modification). Entretanto, não acredito ter produzido trabalho especificamente no “environment” brasileiro. Pode-se dizer que eu tinha amigos na cena de body modification e relativamente tive uma participação na disseminação desta cultura. Mas em termos de produção, especificamente falando, o que houve foi uma apropriação da linguagem de modificação corporal e dos rituais de subcultura para fazer arte aqui na Europa e no cenário de artes europeu. Viena obviamente tem uma tradição em performance e o que percebi foi uma necessidade de reformulação dos modos de representação e entendimento desta arte. Já quando comecei a trabalhar com instalações onde meu corpo não era o foco das atenções, como em Truly Pure, por exemplo, produzido e exibido na Secessão de Viena, em 2010, houve um estranhamento, não só por parte do público austríaco, mas também meu. Eu também senti falta da intensidade que o meu corpo produzia. Então me perguntei: como posso resgatar o diálogo entre corpo e espaço através da performance? Nos Estados Unidos, comecei a produzir esculturas, incluindo-as no contexto de instalações performativas, onde o corpo se faz presente, não como foco das atenções, mas como um mediador entre o trabalho de arte e audiência. Eu não apenas encontrei uma nova linguagem em performance, mas uma nova função para performance. Você acha que eu não me questiono o que aconteceria no Brasil? Eu costumo dizer que para trabalhar só preciso ter acesso a uma estrutura espacial. Seja ela uma parede, um fragmento de chão, um terreno baldio ou apenas as fundações. Me dê um espaço e eu farei algo.
O fato de você ser brasileira interfere de alguma maneira na sua criação artística?
Obviamente a minha nacionalidade influencia meu posicionamento social e político. Portanto, sim, há um impacto na minha produção artística. Porém, a palavra “criação” é um pouco problemática pra mim. Eu acho que a conecto a um entendimento puramente estético ou quase ingênuo das artes, pelo qual não me interesso. Eu prefiro usar a palavra produção. Minha produção não se restringe apenas às artes, como disse, também escrevo textos e me vejo como uma pessoa interdisciplinar, uma teórica e feminista.
No que você está trabalhando agora, qual seu projeto mais recente e do que ele trata?
Eu me encontro no meio da produção de um trabalho chamado Three Stages of Consciousness, que fará parte de uma exposição coletiva que abrirá dia 04 de junho em um novo espaço vienense dedicado à fotografia contemporânea. O tema da exposição é “noite” e inclui trabalhos de 15 artistas austríacos (ou residentes na Áustria). O meu trabalho se refere ao uso da mídia para refletir sobre a produção e representação das artes. Three Stages of Consciousness ressalta a dialética entre criação e transformação, ocultar e revelar, não apenas o conteúdo ou produto, mas também a produção em si, o papel de quem produz e o espaço onde a produção é feita. Neste trabalho, assumo a minha posição como artista, de quem produz algo estético no contexto do espaço das artes e para o espaço de artes. Sendo assim, a palavra “consciousness” se refere aos três estágios de produção e exposição do trabalho, assim como ao meu processo de autorreflexão e crítica.


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