Rodolpho Parigi apresenta panorama de sua produção no livro "Atraque"

Rodolpho Parigi apresenta panorama de sua produção no livro "Atraque"
O Magenta é uma cor que se destaca na produção de Parigi, como neste trabalho da série "Magenta Project"
(Fotos: Divulgação)

"Um pop barroco do século 21". Foi assim que  a curadora Luisa Duarte definiu o trabalho de Rodolpho Parigi. E as obras de arte deste jovem artista paulistano acabam de ser sintetizadas em uma publicação intitulada Atraque (Cosac Naify & Associação para o Patronato Contemporâneo, 192 páginas,  R$ 98). O livro reúne em quase 200 páginas imagens de projetos não realizados, referências usadas nos projeto, o processo criativo, e a paixão de Rodolpho pela cor magenta - que já pode ser percebida na própria capa do livro: uma espécie de caixa nesta tonalidade em que apenas o título "Atraque" está escrito em dourado. O livro, editado em uma parceria entre a APC - Associação para o Patronato Contemporâneo e Cosac Naify, reúne textos de Agnaldo Farias, Antonio Farinaci, Camila Belchior, Luisa Duarte e Marcos Moraes e foi lançado oficialmente no final do ano passado.

Parigi é Bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado - FAAP, onde estudou de 2003 até 2007. De São Paulo migrou para Paris, onde estudou desenho de observação na L'Académie de la Grande Chaumière e realizou residência artística na Cité International des Arts. De volta ao Brasil, tornou-se um dos artistas mais comentados da cena atual, destacando-se por seu interesse nas cores e em explorar anatomia animal e vegetal numa atmosfera que muitas vezes exala caráter erótico ou sexual.

 

ARTINFO Brasil conversou com Rodolpho Parigi para saber mais sobre seu trabalho e o livro Atraque.

 

O Magenta é uma cor recorrente em seu trabalho e deu nome inclusive a um de seus projetos. Como surgiu seu interesse por esta tonalidade e o que ela representa para você e sua arte?

A cor Magenta foi me seduzindo e acabei cedendo a seus encantos. Essa tonalidade me traz sensações de excitação, uma liberação, um calor, penso em sangue, tesão, artifícios, boite, quase posso tocar, me impulsiona a fazer algo. Quando escolho os pigmentos e começo a juntá-los para chegar nessa cor, já se inicia ou estabelece algo muito sensorial, que acontece sempre especificamente com essa cor. Acho que é paixão, não chega a ser amor.

Luisa Duarte definiu seu trabalho como um "pop barroco do século 21". Você concorda com esta definição? Como você definiria seu estilo na arte?

O Barroco foi minha primeira paixão quando comecei  estudar  história da arte. Venho de uma família italiana e portuguesa, escuto histórias e fui criado em um ambiente no qual as referências e a maneira de lidar são muito peculiarmente barrocas. Está no meu sangue. Algumas imagens popularmente clássicas de nosso tempo como a capa do disco de Grace Jones criada pelo designer Jean-Paul Goude ou a imagem da expressão do rosto da escultura de Santa Tereza D’Avila em êxtase, do escultor Bernini me forjaram e, a partir disso, utilizo essas referências e tento retribuir ao mundo o encanto que elas me provocaram. Acho que tem sempre uma relação de prazer e sacrifício nas imagens que busco. A definição da Luisa é válida neste contexto. Eu não tenho estilo, pois não sou uma marca. Posso mudar ou fazer outra coisa a qualquer momento. Acho que tem algumas coisas que eu sempre estou repetindo, e alguns assuntos que sempre me interessam, mas acho que essas são minhas características.

O que significa o nome "Atraque", do seu mais novo livro e como surgiu a ideia para esta publicação?

“Atraque” vem de se atracar com algo, alguém ou com alguma coisa de alguém. O som da pronuncia dessa palavra me agrada, e acho que tem similaridade com meu processo criativo. Existem algumas formas de se empregar essa palavra, mas seu sentido é sempre de atração. A ideia surgiu de minha galeria em parceria com a APC, foi algo inesperado para mim nesse momento. Quando reunimos o material de minhas obras, referências e processos percebemos que podíamos fazer um livro,  assim o projeto cresceu muito. Para mim foi muito importante pois  pude participar da concepção junto com os produtores e o designer do livro. Foi realizado como uma obra gráfica.

Que critério de seleção foi usado para escolher os trabalhos presentes em "Atraque"? Há um elemento comum entre eles?

Atraque não tem somente obras realizadas e textos. Contém imagens de projetos não realizados, referências, processo, ateliê, imagens concebidas especialmente para o livro, e uma transparência que pode ser destacada, tornando-se um múltiplo. Utilizamos obras de diferentes fases, pelo critério de tentar de alguma forma criar um movimento e uma abertura para  as coisas que me interessam e como fui realizando.

Como foram suas residências artísticas em Paris? O que você aproveita destas experiências para seu trabalho atual?

A residência em Paris foi um momento especial e ao mesmo tempo avassalador. Me vi sozinho numa cidade estranha na qual não tinha intimidade e tive de enfrentar esse confronto com uma espécie de falta de baliza. E daí me vi produzindo trabalhos que de alguma maneira tentavam resgatar alguma coisa da tradição brasileira do neoconcretismo, como no caso dos Abstract Nerveux, e ao mesmo tempo faziam referencia a movimentos e artistas modernos como Sonia Dalaunay e até mesmo Tinguely.

Faz diferença o fato de ser brasileiro ao trabalhar com arte no exterior?

Não sinto que faça muito, além do que já falei sobre um certo estranhamento inicial. Depois é a rotina de ateliê que acaba por se impor ao dia a dia estrangeiro. E ter que lidar com situações que fogem ao cotidiano parece que nos deixam mais alerta.

Como você percebe a produção artística e o mercado de arte nacional atual? Na sua opinião, onde o Brasil se encontra no cenário artístico internacional?

Acho que é uma produção bastante diversa e rica nesse sentido. Mas sinto que, por vezes, parece que existe um certo “gosto dominante”, que pode ser acachapante, redutor. Me interessam a variedade e as múltiplas possibilidades. Ultimamente percebo que há muito interesse na produção daqui, especialmente em trabalhos que conversam com a tradição brasileira, muitas vezes de uma maneira um pouco óbvia e direta. Acho que seria interessante se esse interesse fosse mais abrangente.

Quais seus planos para 2013? Você já tem alguma exposição ou projeto programado?

Algumas coisas já estão em andamento como a divulgação do meu livro, mudar para meu ateliê, que está em reforma já há algum tempo. Estou aguardando algumas divulgações de editais que apliquei. Tem a terceira exposição individual em minha galeria em São Paulo para o segundo semestre. Participarei também da feira Art Basel Hong Kong e  da SP Arte. E estou preparando uma exposição em um museu em SP no começo de 2014.